REACH

Texto Curadoria

ISSO É SÓ O COMEÇO  

 

A evolução tecnológica mudou a maneira como consumimos informação, alterou nossos hábitos e nossa rotina, causando impacto direto em todos os setores da indústria e na própria expressão de identidade cultural da sociedade.

A revolução pela qual o consumo de conteúdo vem passando na última década, potencializada pela expansão do acesso através de múltiplas telas e plataformas digitais, transformou o modelo tradicional de produção, financiamento e comercialização do audiovisual, afetando toda a cadeia.

Um advento mudou a relação de consumo de conteúdo: o poder saiu do controle remoto da televisão (agora Smart TV), ou da poltrona da sala de cinema (com uma programação cada vez mais concentrada em blockbusters e grandes lançamentos), e se expandiu para qualquer tela de smartphone, tablet ou notebook em qualquer lugar que esse consumidor estiver disponível para assistir. Em 2020 seremos 4 bilhões de pessoas conectadas através de smartphones.

Nesse novo universo, a audiência virou protagonista absoluta e mais do que nunca é o centro motor de toda a estrutura. Ela detém o controle e a autonomia na busca da informação e da escolha do canal ou plataforma onde assistir seu filme preferido, pagando ou não por ele.

Esta mudança de condição física que engloba todo o acesso a informação, aliada ao novo ritmo de vida em que tempo vale mais que entretenimento, abre uma grande janela de oportunidades que convida a indústria do audiovisual a repensar seu modelo. A boa notícia é que não somos os únicos. O segmento de indústria que neste momento não estiver repensando de maneira sólida e abrangente seu modelo, provavelmente estará em dificuldades em alguns anos.

Claro que um ambiente disruptivo gera mudanças, acabando com nossa zona de conforto e levando inevitavelmente à reflexão. Nada mais familiar neste contexto contemporâneo. E são as grandes empresas de tecnologia que, até agora, têm aproveitado este ambiente. Por terem um DNA digital e uma cultura de inovação, agregam rapidamente valor a seus produtos, criando soluções de produção e escala global.

Não é por acaso que as quatro companhias mais valiosas no mundo hoje são empresas de tecnologia, ligadas de alguma maneira à produção, comercialização e exibição de conteúdo. Todas conhecem e dialogam muito intimamente com seu público e têm nos dados seu ativo de maior valor.

A proposta de curadoria apresenta três eixos de discussão que buscam complementar-se e formam a base da reflexão. Entendemos que este olhar precisa abranger toda a cadeia, pois já não produzimos conteúdo para um público de duas décadas atrás. Produzimos conteúdo para um público que representa cada um de nós e o nosso dia a dia, onde o telefone celular é um assistente pessoal, onde falamos com nossos amigos através de redes sociais, onde os grupos de mensagens instantâneas e os áudios mudaram a maneira como a sociedade se comunica e se informa, onde as plataformas de conteúdo se multiplicam diariamente e o YouTube virou milhões de canais de televisão; onde já não lemos livros e jornais impressos,   onde tudo é instantâneo e imediato. O motor de nossas vidas é “o agora”.

Como deter essa ansiedade e parar para analisar esse modus operandi instaurado à revelia de nossa ambição? Como produzir com excelência, gerando conteúdo relevante, que proponha análise e reflexão, que entretenha com qualidade, que alcance mercado nacional e internacional e que, principalmente, seja visto?

Crise e oportunidade são palavras que andam juntas. E vivemos um momento em que nunca existiram tantas oportunidades. Nunca tivemos acesso a tantos dados e tanta proximidade com o nosso público. Nunca tivemos tantas ferramentas e possibilidades tecnológicas disponíveis. Nunca tivemos a opção de ter um modelo tão autônomo. Nunca tivemos uma diversidade tão grande de canais de exibição e variedade de modelos de negócios. Nunca tivemos a oportunidade de pensar um mercado de comercialização de cinema e televisão totalmente livre da prisão das horas contadas da grade de programação. Nunca tivemos uma audiência tão conectada e nunca tivemos tantos recursos para nos aproximar dela e saber quem ela é. Nunca tivemos tantas iniciativas de formação de público e maneiras de conectar novas audiências a nossos produtos.

A primeira edição do Reach: Audiência, Conteúdo e Tecnologia surge da necessidade de falarmos sobre o assunto, de uma vontade enorme de poder brindar essa discussão ao mercado brasileiro, trazendo players relevantes do cenário internacional e local, para que juntos possam estabelecer um diálogo multicultural e multidisciplinar sobre entender e se conectar com a audiência como ponto de partida.

Não existem filmes sem audiência e não existe audiência sem comunicação. O primeiro eixo apresenta conceitos-chave de Design de Audiência e conta com especialistas do TorinoFilmLab, seguido por uma conversa com instituições de formação e financiamento de desenvolvimento de projetos como IBERMEDIA, Hubert Bals Fund e EAVE. Para completar, um estudo de caso extremamente exitoso de conexão com o público apresentado pela UniFrance, MyFrenchFilmFestival.

Curadoria e Relevância. Inteligência Artificial e Big Data. Consumer Journey e Digital Ecosystems. Este segundo eixo trata de investigar onde estão as oportunidades de comunicação com o público, quais são os novos modelos de negócios digitais, as ferramentas de marketing e tomada de decisão. Renomados curadores de conteúdo compartilharão sua visão numa conversa com a plataforma MUBI:  British Film Institute, Canal Brasil e Festival Internacional de Cine de Guadalajara. Especialistas em dados e executivos de serviços digitais como Globoplay, EYELET, Filmmelier, Desbrava e Parrot Analytics traçam caminhos possíveis para facilitar a comunicação com a audiência através do uso de ferramentas avançadas e estratégias inovadoras.

A mudança nas regras do jogo transformou o cenário. O terceiro eixo amplia a discussão para o financiamento e a comercialização. Empresários produtores e distribuidores com grande destaque no mercado internacional, como RT Features, BF Distribution, Blue Fox Entertainment, CINEVINAY e Media Musketeers, munidos de criatividade e sentido de inovação, apresentarão possíveis panoramas e modelos que vêm sendo praticados e testados.

Em um momento em que o mercado mundial está em plena reestruturação e a indústria brasileira passa por mudanças significativas, esperamos que a programação aqui reunida amplie perspectivas e contribua com a visualização de novos caminhos possíveis para o conteúdo audiovisual.

 

Curadora Paula Gastaud